Wednesday, January 02, 2008

Ouvi o que ela disse sobre o passado

(Alguém faz um filme porque acredita que vai morrer. Uma história sobre o reencontro de pessoas que se julgavam mortas. Em algum momento ela pede perdão, porque diz que de fato teve a intenção de matá-lo. Ele a procura culpado, porque acredita não ter feito nada, naquele momento mesmo de quando a levaram já morta.E não conto o final, porque talvez ainda não tenham visto esse filme. Mas, do diretor, todos sabem que ainda vive.)

Só agora me dei conta de que teu caderno de pequenas coisas também foi levado. Pareceu difícil chamá-las de poesia. E que forma mais bonita de dizê-las. Assim você disse. Não acredita? Como foi mesmo que disse? Que palavras usou para dizer do que se perdeu? Queria muito lembrar. Acabei de me dar conta do que te levaram. “E ainda paguei mais três prestações pela bolsa que acabara de comprar.”
De mim levaram todas as aulas. Essas mesmas que guardava para a ocasião em que pudesse passá-las a limpo. Um velho hábito. Foi assim que aprendi a estudar. Guardando para ter mais uma vez. Era a garantia de que nada se perderia. É claro que há muito não as via. Mas no dia do assalto comprara algumas canetas novas para revê-las todas e pensá-las. As minhas aulas.
É engraçado te ouvir perguntar mais uma vez por que não saímos do carro. Hoje - você disse - parece bem claro que é o que deveríamos ter feito. Mas, a verdade é que nunca pensei assim. Nem ontem e mesmo agora quando me apresso em salvar esse arquivo no Word. Ainda que nos levem de assalto, nada podem fazer se lhe dermos o que pedem. Basta não reagir. E então, de alguma forma, recebemos em troca o direito de seguir. Chamam isso de abnegação.
Esse é um valor cristão herdado pela minha família que diz ter sido necessário para a própria existência ter abaixado a cabeça. Os novos cristãos eram judeus que tiveram que assimilar valores que lhes eram estranhos para que pudessem ficar em um lugar que diziam não lhe pertencer. Alguns foram malacos e inventaram maneiras de não perder o que tinham e acho que até se divertiam com isso. A tão cobiçada malandragem. Outros simplesmente abriram mão e seguem pedindo desculpas: quando de novo, em uma terra estranha, a cabeça baixa ainda serve para se adaptar a um lugar onde todos são pretos, comem com as mãos e se matam como aos bichos. Minha vó que é devota de São Benedito diz nunca ter visto um preto até ter chegado aqui. “Na minha terra não era assim”. Meu tio sempre me explicou tudo através da cosmologia, da mitologia, da genealogia. As histórias de família.
Deve ser essa a razão pela qual insisto. Agradecida pelo o que restou. Novos cadernos. Um novo a cada seis meses para substituir um outro devidamente terminado. Tomando notas. Fazendo listas em post-its. Latas de biscoitos. Caixa de giz de cera. O nome a lápis no livro. E quase sempre uma história que o anuncia a quem vier (se as quiser). As minhas histórias nas histórias dos outros. Agendas antigas. E uma única foto na carteira. Que pode sim ser levada. Eu me arrisco e não tiro cópia. Tenho uma tia que guarda pedaços dos cabelos dos filhos em uma santa. Cordão umbilical e os primeiros dentes. Santo relicário é aquele que guarda as coisas. Lá onde não tem nada. No fundo falso. No dentro oco. Já serviu pra contrabando também.
Dos meus cabelos. Eles nunca cresceram. E essa é uma história que sempre conto. Como os cadernos. Lembrei agora que também guardei um pedaço dos meus. Para lembrar como eram quando vermelhos e cortados por mim mesma.
“Tu tá diferente... Já sei! É o cabelo. Tu cortou o cabelo?”Nos cumprimentamos sempre estranhando alguma coisa. Como a história do homem que falava mal de suas mulheres. Todas cortavam os cabelos após o fim do namoro. Uma até ficou careca. “Careca? Sim, careca. E tu não sabia dessa história?” Ele reclamava dela,que imaginava que não o repetiria daquela forma - logo ela! - que ficara ainda mais bonita que antes.
“As pessoas mudam”. Sim, a gente se repete. E se muda, é sempre por reconhecer alguma coisa ainda mais de trás. Dessas que a gente diz querer mudar e reclama a posse quando as levam embora. “Tinha tanta coisa dentro daquela mochila”. Ou ainda de uma amiga que todos dizem ter mudado. Quase sempre seus olhos estão tristes, constrangidos ou magros. Eu bem sei que não quero começar nada e dos meus cabelos, prometo dar a eles o tempo que precisarem para que pela primeira vez possam ser grandes.